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Interiores ou 400 anos de Solidão

Interiores ou 400 anos de Solidão

Interiores terá o seu lançamento em 22 de Março de 2012, às 21 horas no Cine Sesi Maceió. A entrada é franca.

 

Trailer Interiores from Núcleo Zero on Vimeo.

Contemplado no edital Petrobras Cultural, o média-metragem Interiores ou 400 Anos de Solidão, de Werner Salles Bagetti, constrói um ensaio sonoro-visual a partir de personagens reais em cidades distintas do Sertão de Alagoas. O critério de escolha dos personagens segue uma característica comum: vivem em situações extremas, marcadas por problemáticas seculares Da região (água, trabalho, educação, infância). O filme mergulha sob uma perspectiva estético/existencial, no cotidiano dessas pessoas, elaborando uma narrativa a partir de um acompanhamento de suas ações, juntamente com um plano sonoro crescente, produzido a partir de entrevistas com outros viventes da região; capturando suas falas, sentimentos, pensamentos, sonhos, silêncios, ruídos, lendas, músicas e orações.

Cartaz

 

 

 


3 Comentários a Interiores ou 400 anos de Solidão

  1. Interiores ou 400 anos de solidão.
     
    Trata-se de um filme intrigante e profundo, um mergulho no consciente coletivo das pessoas que vivem esquecidas e isoladas com seus hábitos, costumes e crenças, uma antropofagia que se renova constantemente no dia a dia dos sertanejos, o mergulho inicia-se com os sons que seria (suponho eu) de um parto, o nascimento, o inicio de todo um processo evolutivo e totalmente desconhecido daqueles que nascem naquela região, estou gestante de uma planície que irei parir daqui alguns passos, a visão ampla do vale mostrando um vazio à primeira vista, mas aos poucos se percebe que ele (o vale) esta repleto de vida nas mentes e no imaginário das pessoas que vivem lá, a idéia de vida, pecados, alegrias, esperanças, fé e sofrimentos, a dualidade do céu e do inferno, o medo e a culpa acompanham a existência até o desfecho da morte, como deixa bem claro em seu relato a Srª. Maria Rosa de Jesus “… não é? Verdade isto aí”.
     
    Uma estrada e um texto em francês, um prelúdio da antecipação do caos, a religião é o único alivio para tanta solidão e sofrimento deste povo, a vela acesa remete ao psicológico do homem, pois a vela representa o corpo e ao estar acesa remonta o arquétipo da luz na consciência humana que consome até a hora de sua morte, o fato de haver outras velas acesas representam as varias vidas que buscam o conforto espiritual numa terra tão sofrida, as fotos ao fundo remetem a existência anterior de outras vidas que por ali passaram buscando o mesmo conforto na luz de suas consciências, a imagem mostra uma mão tentando fazer a vela (vida) se equilibrar e que não se firma até mostrar pessoas caminhando ao som de uma cantoria religiosa sobre o comando do padre Cizo, um pastor católico que arrebanha seguidores para o caminho da vida eterna, entendo que este é o papel das religiões, rebanhando ovelhas que buscam luz e conforto espiritual para suas vidas, “Jesus está esperando por você, Quem é que vai? Quem é que vai, nesta barca tem Jesus, quem é que vai?” fica claro que o povo tem fome, fome de Deus, o padre mostra sua liderança e coloca todos em sintonia e mantém seu discurso, o padre é ativo e carismático, parece estar ligado numa vibração intensa, é interessante porque alguém faz uma “doação”, alias sem apoio financeiro nenhuma organização se mantém firme, mesmo sendo religiosa, o padre deixa claro que a igreja católica precisa da fé cristã deste povo miserável para se manter firme perante as outras religiões e ao próprio homem, a ave pairando sobre as cabeças humanas é ao mesmo tempo um elo de ligação e desfecho de toda uma história ou parte dela, como se alguém ou o próprio criador estivesse olhando de um outro plano mais elevado, um observador oculto e ao mesmo tempo presente.
     
    A questão social com o relato ao fundo sobre a indignação do homem com as pessoas que recebem do programa assistencial do governo para comunidades carentes “bolsa família”, não contra ela, mas contra a inércia que ela provoca nas mentes mais fracas, parece bem coerente ao pedir uma frente de trabalho em vez da esmola de um governo que parece tão distante daquela realidade, o interessante que a cena mostra um trabalho a ferro e fogo, o que faz a analogia iniciada na revolução industrial e o processo evolutivo do homem sendo envolvido pela sua própria ânsia de crescimento e o aumento do consumo na produção de bens manufaturados, estando este mesmo homem aprisionado em sua própria evolução o que por si só já é um contra ponto, homens trabalhando com instrumentos que parecem facões ou porretes de madeira e o texto invertido sonorizando e ilustrando bem toda a síntese desta temática.  
     
    O olhar da mulher viúva que narra a história do marido que construiu a própria sepultura mostra a situação de isolamento dos seres viventes do sertão alagoano e que poderia ser o retrato de isolamento de muitos outros sertões brasileiros ou outros países com a mesma condição de vida, o texto “terra cemitério” e a cena fortíssima de um homem conduzindo o caixão do próprio filho na bicicleta para ser sepultado é um pequeno resumo da essência do filme, a câmera para e segue o homem rumo ao seu triste trajeto naquela estrada de terra, a mesma estrada que sustenta todos os passos  de todas as pessoas que vivem neste planeta, a estrada no filme é bem marcante seja ela uma rodovia pavimentada com a imagem em movimento  ou uma pequena estrada de terra, uma trilha qualquer de um passo solitário, o fato gera uma reflexão profunda sobre esta caminhada e a nossa fragilidade perante aos desígnios do universo, a estrada da vida com seu principio, meio e um fim, as vezes desconhecido e temido, mas que não pode ser evitado pelos filhos herdeiros do legado do carbono.
     
    As cantigas de lamento vão se mesclando as imagens e as animações de um céu repleto de estrelas em seu giro espiritual, o mesmo giro de uma espiral cósmica, o mesmo giro mantido “oculto” por algumas religiões, como na bela performance Sufi de Shams Ensemble com poema de Rumi, como nos rituais sagrados da AumBhandhan, conhecida por nós como Umbanda, o giro no sentido anti-horário é o movimento cósmico do universo feito sobre nossas cabeças, lembrando que o nosso planeta é uma esfera azulada que paira na imensidão universal girando em seu próprio eixo e ao redor da estrela maior, o sol, o mesmo movimento também é realizado durante os rituais de praticamente todas as religiões do nosso planeta, no filme a imagem gira sobre o símbolo máximo da fé sertaneja, a cruz, novamente surge a vela em sua reflexão da luz na consciência humana e sua combustão constante até o dia de seu consumo total e sua transcendência do plano físico para o espiritual, as senhoras de negro numa representação de um velório, os olhares tristes e os lamentos sertanejos sobre a experiência da morte, as animações chegam a certo momento parecer com verdadeiras obras de arte, afinal o documentário é uma obra de arte por inteiro, as musicas e as canções, as cenas e os detalhes, o tom e a cor, não há como ficar indiferente a tanta informação e certamente o filme não acaba nos créditos finais, o espectador vai com o filme na cabeça para casa e para vida, o questionamento não encerrará e cada um que assistir a este filme terá uma experiência inquietadora e intrigante que poderá acompanhá-lo por toda uma vida.
     
    Zilmar de Castro Junior
     

  2. Wladymirl Lima

    EXTERIORES

    Wladymir Lima

    INT. PAJUÇARA. NOITE

    …um círculo aberto …um ciclo fechado … curto-circuito dos sentidos… ideias soltas e a total falta de ideia do que fazer com elas, presas, dilaceradas após a sessão… o silêncio tumular reverbera ao fim da projeção, um inconveniente aplauso quebra aquele silêncio coletivo interior… bem no momento em que a obra jamais poderia ter sido aplaudida, por ter estado sendo lentamente digerida, por ter estado sendo acontecida no exato instante em que se despedia de nossas retinas… esse filme, em particular, jamais deveria ser objeto de aplauso… seria um insulto… pois seria infinitamente pouco… justamente por se tratar de um filme feito sujeito, muito mais que subjetivo…

    FADE IN:

    INT. INTERIORES. DIA/NOITE

    FADE OUT:

    …há momentos em que uma obra de arte supera o próprio suporte… são raros esses momentos… nos dias atuais, em que forma e conteúdo se fundem e confundem espectadores ávidos pela nova coqueluche imagética, há que se pensar que a representação de que trata o cinema, enquanto arte, é nada mais que a vida, 24 fotogramas por segundo, 23,976 frames, pra ser mais exato… digital… ainda assim toscamente distante da corpórea experiência multissensorial intrínseca a cada ser vivente e dissecada em cada ser morrente… mera representação…

    CORTA PARA:

    INT. PAJUÇARA. NOITE

    …naquele exato instante, o que precedeu o aplauso, a arte ultrapassou a percepção da vida, pelas retinas do maestro… pela lentes mecânicas, imperfeitas, de um filme perfeito… e tão mais-que-perfeito por ser incompleto, repleto de descaminhos e rotas de fuga… um filme que incita a memória… um presente para o futuro…
    …naquele momento o filme se fez vivo em cada mente atiçada pelo sentimento comum de sermos, enfim, seres reticentes…

    INT. GRUTA. MADRUGADA

    …um filme que documenta sempre mente, aumenta a verdade justamente por pressupor sua existência… efêmera… distorce com suas lentes, exemplifica, amplifica, modifica e é, por pressuposto, incoerente… desmedido, incontinente…

    …incontido em sete palmos que não cabem ao nosso corpo-alimento, que se enterra a cada passo que damos em nosso algoz, o chão… as feridas que ardem em olhos alheios, e a sensação de impotência e delírio diante do incompreensível… latifúndio árido… inverossímil.

    …joão cabral e werner salles ambos sabem que a obra é maior que o homem e que o homem é menor que a vida, cujo sentido caminha, num caminho inexorável, ressentido, pressentido, para a morte…

    …mas seria a morte a porta, uma partida? ou seria, similar ao parto, uma entrada para o mistério do que já não é sentido? nem dor, nem fome, nem frio, nem medo.. nenhum segredo, nenhum recuo, nenhum degredo… seria alívio, por fim ou seria só o começo?

    …como um ciclo… aberto ao arbítrio visceral da escassez… a mesma que fomenta a fartura em poucas mesas, em larga medida…

    FADE IN:

    INT. ORLA DE PONTA VERDE. NOITE

    FADE OUT:

    BARULHO DE PNEUS NO ASFALTO

    …. ah, que delícia… como é doce esse sumo da cana… como é inócuo o bagaço… como são felizes os turistas, assim como peixes, fisgados num açude artificial, qual aquário… nenhuma aquarela aqui seria páreo para os dias que virão depois da exibição recém-parida… afinal, não é todo dia que se vive, sente, testemunha e presencia o parto de uma OBRA PRIMA!

    FIM

  3. Werner

    Wladymir,

    seu texto me redime. 
    Através dele tiro sete palmos de terra das minhas costas.
    Vc é o tipo de espectador que vale o risco de ter sido excessivamente incômodo.
    Pra mim não foi fácil fazer o filme, muito menos assistí-lo acompanhado de 
    platéia.  O constrangimento final deu o tom da minha inquietação. Não era 
    um filme pra receber parabéns. E a cada um que recebia, me parecia pêsames.
    Não consigo interpretar racionalmente, nem sei se quero, a relação das pessoas
    com aqueles 30 minutos de imagens. A maioria,  viu com desagravo.  Outros se sentiram
    ultrajados pela invasão de seus sertões. Pois, cada um carrega um sertão dentro de si.
    Outros, a maioria não entendeu as línguas, os dialetos…
    Mas, vc surge como uma luz no fim do túnel. Pois, um só coração tocado, vale uma obra.
    Fiquei bastante emocionado lendo o seu texto-filme. Gostaria de saber
    se posso publicá-lo no blog da Núcleo Zero ou no site do filme.
    E muito obrigado,
    pela pá. Me sinto mais leve. 
    Começando outro ciclo…

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